Nonata Corrêa

CONTE-NOS SUA HISTÓRIA

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Biografia Nonata Corrêa 

Yalorixá e Militante de direitos humanos 

Entrevista Keila Serruya Sankofa 

Texto: Raquel Cardoso ( Coletivo Ponta de Lança) 

A voz que não cala:

A trajetória de militância   

Sai de uma ilha distante

Pisei em um triângulo de areia

Sai de uma ilha distante

Pisei em um triângulo de areia

Vesti a capa de tubarão 

E ganhei a coroa de sereia 

Vesti a capa de tubarão 

E ganhei a coroa de sereia 

(Ponto da cabocla Mariana) 

 

Raimunda Nonata Corrêa nasceu no Seringal às margens do Rio Juruá, no dia 14 de setembro de 1954.  Filha de Maria Gertrudes Corrêa da Silva e Antonio Francisco da Silva, é irmã de 9 filhos. Sua trajetória divide-se entre a atuação nas religiões de matrizes africanas, nos movimentos sociais e partidário no Amazonas.

 

Mãe Nonata começou a frequentar terreiro de Umbanda aos 14 anos de idade, e foi com mãe Amazonina que teve a oportunidade de viajar à Bahia, onde conviveu com mãe Menininha durante alguns meses. Filha de Oxum Apará, iniciada na religião há 47 anos, conheceu em 1973 o Babalorixá que a iniciou no candomblé de tradição Nagô, Pai Raimundo Nonato, fazendo suas obrigações na religião em 1979 e dando continuidade aos trabalhos por mais dois anos em Belém. Desde 1985 mantém o Terreiro Eira de Mina Nagô Yá Abaoô, sob a regência de Dona Mariana. Em 1988 criou a Associação Nossa

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Senhora da Conceição, constituindo seu terreiro em um espaço de reuniões e debates acerca das questões e das demandas sociais e políticas da cultura e da religiosidade afro-brasileira. Além do culto aos Orixás, mãe Nonata relaciona a prática espiritual com a social, conduzindo seu terreiro unindo espiritualidade às questões sociais, por entender que Candomblé é religião afro brasileira, de matriz africana, e tem uma história de resistência ao racismo:

 

"Todos meus filhos devem, estar preparados para lutar contra o racismo, não tolero nem parente, nem amigo, nem filho racista. Eu não tolero o racismo em hipótese nenhuma. Esse tipo de gente deve estar na cadeia, e não aqui ao meu lado" (Nonata Corrêa)

 

Também articulou uma organização no Amazonas, inicialmente intitulada Coordenação Amazônica da Religião de Matriz Africana e Ameríndia (CARMA), para discutir a questão da religiosidade em contexto amazônico. Instaurando, posteriormente, a Articulação Amazônica dos Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana (ARATRAMA), com o intuito de discutir políticas para o povo de terreiro, além de formar e informar sobre direitos e deveres, realizando um processo de resgate da identidade cultural deste povo. Anualmente também organiza o Balaio de Oxum, iniciado entre 1975 e 1977, por uma promessa. O evento acontecia antes na Ponta Negra, depois foi realocado para o Tarumã. Atualmente divide-se entre o cortejo na orla da praia da Ponta Negra e a entrega do balaio das oferendas no Remanso do Boto, nas águas do Rio Amazonas.

 

Enquanto militante, em 1979 passou a integrar a Articulação Nacional dos Movimentos Sociais, onde se discutia a organização de centrais e movimentos sociais, e a partir de 1984 passou a atuar ativamente no Movimento Sem-Terra, na luta pela democratização da cidade. Assim, esteve presente em diversos processos de ocupações de terra em Manaus ao lado de Irmã Helena Augusta Walcout, militante de longa trajetória pelo direito à terra, consolidando dezenas de bairros nas zonas periféricas da cidade de Manaus.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Atuou também, ativamente, como delegada pelos movimentos sociais na construção dos marcos legais pela garantia de direitos das minorias nos debates da Constituinte.

 

No movimento negro e afro-religioso, esteve ao lado de lideranças históricas, entre elas Nestor Nascimento, pioneiro nos debates acerca das pautas de negritude no Amazonas, como o Movimento Alma Negra. No trabalho de assessoria e formação na Central Única dos Trabalhadores (CUT), de 1988 à 1996, auxiliou nos debates sobre as metodologias para consolidação do projeto das Escolas de Formação Sindicais, possibilitando a habilitação de dirigentes, formadores e militantes de base do Partido dos trabalhadores (PT).

 

Atualmente, é uma das fundadoras do Fórum de Mulheres Afro-Ameríndias e Caribenhas, compõe o Conselho Estadual dos Direitos da Mulher (CEDIM) e coordena o Núcleo de Pretas, Pretos e Povos de Terreiro - Quilombo Petista.

Assim, a todos e todas o que aqui se apresentou, foi a grata oportunidade de registrar, para que se possa (re)contar, a narrativa de vida desta mulher negra, amazônica, cuja trajetória, abundante, incansável, ramifica-se e uni-se a de tantas outras e outros, fortalecendo-se, deságua em mares que nos possibilitam caminhos de retorno a nossos ancestrais, assim como, os próprios rios daquela que comanda sua coroa:


 

ORA YÊ YÊ Ô, MAMÃE OXUM!

SALVE, CABOCLA MARIANA!

A BENÇÃO, MÃE NONATA!